Vocês já repararam como o logotipo da Livraria Siciliano faz lembrar Sauron, o demônio imperialista e destruidor de O Senhor dos Anéis? Um olho enorme no topo de uma torre, sendo que a torre da Siciliano ainda por cima tem o formato de S, de Sauron...
Pois acho que isso não é de forma alguma coincidência. O Grupo Siciliano é um dos maiores vilões do mercado editorial, com sua política, nas compras de livros para suas lojas, de favorecimento das grandes editoras em detrimento das pequenas, das quais exige descontos de pelo menos 60% e prazo de 90 dias, ou até mais, para pagamento. Com quase 80 livrarias espalhadas pelo Brasil, conseguiu cacife suficiente para eleger seu presidente, Osvaldo Siciliano, presidente também da Câmara Brasileira do Livro, legitimando assim o monopólio dessa empresa, cujo controle acionário, aliás, é detido por uma holding norte-americana.
A política exclusivamente mercantilista da Siciliano já está afetando também a Bienal do Livro de São Paulo, organizada pela CBL. Há alguns dias, a Liga Brasileira de Editoras (LIBRE), órgão que reúne 102 editoras de médio e pequeno porte, anunciou que não participará da Bienal de 2006, pela determinação da CBL (i.e., da Siciliano) de fazer com que entidades que adquirem seus espaços coletivamente sejam obrigadas a ocupar áreas pré-determinadas e pouco vantajosas com relação a acesso do público. O presidente da LIBRE queixou-se da falta de interesse dos organizadores da Bienal nas empresas menores: "Infelizmente, a Bienal de São Paulo parece caminhar na direção oposta à das mais importantes feiras de livros do mundo que, interessadas na diversidade e variedade do evento, buscam formas de viabilizar a participação de pequenos expositores, inclusive com tabela regressiva de preços".
Mas a máfia Siciliana, com o perdão do trocadilho, está muito longe de ser a única empresa cujo crescimento prejudica o mercado editorial em benefício próprio. Grandes editoras monopolistas também o fazem, e a corrupção é a moeda corrente nas suas transações. O melhor (na verdade o pior) exemplo disso é a Companhia das Letras, também de São Paulo.
Essa editora foi fundada na década de 80 por um ex-executivo da editora Brasiliense, Luís Schwarcz, que, com uma vasta carteira de clientes e um capital considerável, já chegou investindo pesado no aspecto do livro (não necessariamente no seu conteúdo), produzindo obras com capas caprichadíssimas e papel importado, tornando o livro um produto de luxo, acessível somente às elites, ou seja, exatamente o contrário do que vinha fazendo desde a década de 70 a Edições de Ouro, que publicou no Brasil praticamente todos os clássicos mundiais em livros de bolso acessíveis a todos os bolsos. Infelizmente, porém, todas as grandes editoras seguiram a tendência nefasta inaugurada pela Cia das Letras de produzir edições caras para poucos, ao invés de edições baratas para muitos. Até a Edições de Ouro, rebatizada de Ediouro, mudou sua política e hoje só produz edições caríssimas.
Não contente com esse desserviço à cultura nacional, a Companhia das Letras, que hoje pertence ao Unibanco (o próprio Schwarcz é um acionista minoritário) está envolvida em esquemas de corrupção e nepotismo bastante sórdidos.
Recentemente ocorreu a terceira FLIP (Festa Literária de Paraty), promovida pela Companhia das Letras e pelo seu proprietário, o Unibanco. Nesses eventos são levados alguns autores editados pela Cia das Letras e mais uma ou outra editora autorizada por ela. Os livreiros presentes ao evento também são autorizados pela Cia das Letras, como a Livraria da Vila, pertencente a um tal Samuel Seibel, amigo de Schwarcz.
Acontece que a Biblioteca Nacional, órgão público do governo federal, que vive de verbas públicas, é quem financia a Festa Literária de Paraty (no ano passado, com R$300 mil). Ora, o presidente da Biblioteca Nacional é um espertalhão chamado Pedro Correa do Lago, negociante de livros raros e documentos antigos, que ajudou a construir o acervo de fotos do Brasil Antigo, hoje no Instituto Moreira Salles, do Unibanco. E que tem como uma das responsáveis a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, mulher de Luís Schwarcz. Pedro Correa do Lago é ainda genro do escritor Rubem Fonseca, cujas obras são editadas pela Cia das Letras.
Ou seja, o presidente da Biblioteca Nacional utiliza dinheiro público para bancar negócios de banqueiros amigos e parceiros de interesses, privatizando a "Bancoteca", como bem definiu o jornalista Sebastião Nery, que denunciou esse esquema sujo há um ano, sem que absolutamente nada acontecesse.
Portanto, aqueles dentre vocês que fazem uma imagem elevada dos profissionais do livro, simplesmente por serem profissionais do livro, dêem uma segunda olhada. O mercado editorial está tão emporcalhado de lama quanto a política, e só o prestígio que o cerca faz com que leitores brasileiros achem normal pagar mais de 40 reais por um livro com duzentas e poucas páginas.